sábado, 22 de outubro de 2016

Um poema de Sophia

Sophia de Mello Breyner Andresen fotografada por Inês Gonçalves nos anos 1980.
Um desses dias, na aula — porque este texto também é para contar que estou fazendo uma especialização em revisão de textos —, lembrei de um poema avulso de Sophia de Mello Breyner Andresen (até aqui, o único que li dela, mas amo).

Como não houve brecha para mencioná-lo no meio da apresentação de uma colega e achei a lembrança agradável, além de fortuita, resolvi anotá-lo por aqui. O título é "Poema de Helena Lanari".


Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal.

domingo, 21 de agosto de 2016

Mesmo as cotovias e esperanças sonham

Shirley Jackson em 1956 por Erich Hartmann @ Magnum Photos
Tem o conto em que um homem zeloso perde o apartamento para a vizinha e um estranho, o que uma mulher saindo anestesiada do dentista e entra em um ônibus, o que um velho no metrô começa a contar "historinhas" para uma criança, o que uma noiva procura pelo noivo no dia do casamento sem encontrá-lo, todos tensos, inesperados, assustadores.

Tem o romance que conta a vida de vários habitantes de um subúrbio perto de Los Angeles, tem o que as pessoas são convidadas a participar de uma investigação paranormal em uma mansão, tem o que duas irmãs vivem em um castelo e são repelidas pelos moradores da cidade próxima, todos incríveis, impossíveis de largar.

Por pouco tempo ainda a Shirley Jackson vai continuar um pouco distante, mas em breve vão lançar We have always lived in the castle pela Suma de Letras por aqui e eu queria ter a chance de deixar as pessoas cientes.

Ela é maravilhosa, apaixonante desde o primeiro parágrafo e ninguém pode desperdiçar uma chance de ler um livro dela.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Umas digressões sobre o acordo ortográfico

Saramago em Lanzarote
Micha Bar-Am @ Magnum Photos
Durante anos, resisti a algumas das mudanças do acordo ortográfico.

Fiquei bem chateada com a queda do trema (ainda lamento um pouco) e acho meio imbecil ter que escrever micro-ondas (microondas é mais enxuto e mais sensato).

Eu pensava que era tudo truque, engenho e manha para vender mais dicionários e gramáticas (hoje não entendo por que achava isso ruim, é sempre bom que que se vendam dicionários e gramáticas e que eles continuem atualizados, certo? E que difícil deve ser mantê-los relativamente atuais.) e se tinha alguém que me faria mudar de ideia, é o Saramago. O homem é um mágico e pode fazer a gente pensar sobre praticamente qualquer coisa.

Então, é isso: 4'44'' que me fizeram perceber que o acordo ortográfico não foi horrível, que algumas dessas mudanças são legitimamente boas ideias e que a língua muda e é a gente que muda ela.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Que comecem os trabalhos

Andy Roberts @ flickr
São muitos anos tentando achar um rumo ou uma profissão que parecesse natural.

Até que veio a epifania: já faz algum tempo que em casa eu sou a leitora oficial de manuais e corretora em exercício de e-mails e, desde sempre, eu sou uma pessoa minuciosa (mas nunca diria em uma entrevista de emprego que meu pior defeito é "ser perfeccionista demais") até finalmente decidir começar a revisar textos como profissão e acho que finalmente estou no caminho certo.

Aí veio a dissertação da minha irmã, que é incrível e espero que seja publicada em breve, foi a primeira vez que precisei encarar a realidade de corrigir de verdade o texto acadêmico alheio.

É verdade que sempre vai ser necessário fazer diversas pesquisas — revistas diferentes exigem padronizações específicas, a reforma ortográfica ainda confunde muitas pessoas, aquela linha vermelha sublinhando as palavras no Word pode atrapalhar mais do que ajudar — e é exatamente isso que é o atraente em revisão, essa busca contínua e aprender constantemente.

Vamos vendo, vamos descobrindo. E se precisar, me avise que eu reviso para você.
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